domingo, 27 de janeiro de 2008

Ao Paulinho

Cuidado ao digitar aqui, Unzer.
Cada letra será lida com calma e paciência, saiba que haverá amparo para cada frase.
Não tema, mas cuide das palavras.

E esteja de braços abertos, porque seus colegas aqui têm apreço (talvez até em demasia) pelas letrinhas que apertam no teclado.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Minhas impressões sobre o conto.

*

O conto, como forma narrativa, envolve alguns elementos estilísticos e formais que, em uma primeira leitura, podem parecer muito intrincados e peculiares, de forma que a sua leitura e decifração exigem um compromentimento visceral do leitor com o texto. Um conto pode ser lido de muitas formas, suas significações mudam de acordo com os ânimos e o temperamento, suas cores e texturas se dispersam e se coagulam cada vez que nos debruçamos sobre ele. Isso acontece sempre que estamos prontos a perceber os sentidos ocultos que até então nos eram totalmente misteriosos.

Dessa forma, qualquer forma de leitura desinteressada se torna um desastre para o entendimento do conto. A primeira leitura é sempre insuficiente. São necessárias sucessivas releituras, que devem revelar camadas sobrepostas de entendimento e reconhecimento que nos permitam penetrar no enigma daquele conto. E quando isso acontece, temos a sensação de o ter lido muitas vezes como se fosse a primeira. Esse é o grande barato de ler contos. Sua capacidade mutante, instável, que vacila e que não fixa por si só o sentido da ficcionalidade ali posta. O conto, como forma de narrativa, nada mais é do que uma linguagem, e ser alfabetizado não é o bastante para dominá-la em suas diversas formas, em seus múltiplos dialetos. Como o Pedro bem me disse uma vez, toda forma de arte é uma linguagem que deve ser dominada e aprendida, no intuito de revelar os sentidos escondidos de uma realidade essenciamente sem sentido, transbordante. Talvez, me arrisco a dizer (ou foi o Pedro?), esse contato com a realidade, essa re-ligação primordial, sua compreensão e comunicação (ação de tornar comum), seja o fim último da arte - da boa arte, pelo menos.

Existem alguns excelentes. Uma casa que é tomada por elementos insondáveis (Casa Tomada, Julio Cortázar), um objeto esférico que concentra todo o universo (O Aleph, Jorge Luis Borges), o amor que paralisa um pintor como uma morte dilacerante (Os Amigos, Juan Carlos Onetti). Neles, o absurdo e o fantástico, o impossível, as fissuras da realidade que revelam a constante e ameaçadora falta de sentido, sempre pronta a atacar e destruir, a contrapelo, o cotidiano trivial e ordinário. Contos que se abatem sobre nós com uma força avassaladora e que tentam descortinar todo um universo de coisas que não sabemos, que nem conseguimos imaginar. Ao meu ver, essa deve ser a função de um conto, essa me parece sua principal proposição em termos de conteúdo, independetente de suas variações formais. Mais do que isso, essa deve ser a função da literatura. Sem mais.

* Julio Cortázar tocando trompete

Piglia e o meu desespero

Ricardo Piglia me foi apresentado pelo colega de blogue Rodolfo.Piglia é argentino, escritor, professor da Universidade de Princeton (E.U.A.) e estudioso da literatura argentina."Formas Breves" - excelente apanhado de alguns de seus ensaios, diários, palestras e artigos - é uma obra de referência na crítica literária argentina. Acreditem, é uma quantidade de informação difícil de digerir assim, de cara. E terrivelmente assustador conhecer nas primeiras vinte ou trinta páginas nomes que são a excelência da literatura argentina contemporânea e que você nunca ouvi falar. Claro, um ou outro nome você conhece, já leu alguns portenhos ilustres, Borges, Cortázar. Outros você conhece de nome, Macedonio Fernández, , Lugones.

Mas a análise de Piglia é minuciosa e passeia de Joyce a Eurípedes, de Poe a Cervantes, de Freud a Roberto Arlt.

Me desespera, sobretudo, a ignorância que tenho em relação aos autores latino-americanos, os vizinhos aqui ao lado. E que eles provavelmente devem ter acerca dos brasileiros, já que quase nunca me é apresentado um novo autor nacional, imagine aos hermanos!

É uma postagem só pra lembrar que nossa literatura está nas estantes mais escondidinhas, que não conhecemos os escritores que falam o mesmo idioma que nós. São incríveis Guimarães Rosa, Machado de Assis, Clarice Linspector, mas há tempos não encontro as referências da nova literatura brasileira (que dirá da latino-americana).

Preciso ler mais a coluna "livros" da Ilustrada ou do Caderno 2?

Duvido.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Prólogo

"Desocupado leitor, acredite que eu gostaria que este blog, como filho do entendimento, fosse o mais bonito que se pudesse imaginar. Mas não me é possível ir contra a ordem da natureza; que nela cada coisa gera seus próprios semelhantes".

Paráfrase, tradução ignorante e simplificação grosseira de trecho do prólogo de Miguel de Cervantes para “El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha”.

Para começar...

Um bom livro, literatura de preferência. Em seguida, o silêncio das madrugadas insones, ou o silêncio contínuo dos burburinhos das ruas, esse ruído constante do sacolejar dos ônibus, ou das rajadas de vento inesperadas anuciando a chegada do metrô. Depois, um ensimesmamento, uma predisposição à solidão, às transmutações do tempo e dos espaços, das vontades e dos desejos. Mais tarde, as flutuações e os suores. E, enfim: o entendimento. Guardemos esse espaço para nossas impressões, nossos palpites e nossas intuições. O que estou lendo, e o que vocês estão lendo, isso é o que deve interessar...